
publicado em 16 de fevereiro de 2026
por Barbara Medeiros
Se você acompanha o mercado de tecnologia financeira, já deve ter ouvido falar bastante sobre wallets digitais. O termo aparece em relatórios, eventos e até nas conversas de corredor. Mas entre o discurso e a prática existe uma distância considerável.
No Brasil, as wallets digitais saíram da fase de novidade e começaram a fazer parte da infraestrutura real de negócios. Não estamos mais falando de um canal adicional ou de uma funcionalidade isolada. Estamos falando de uma mudança na forma como empresas lidam com identidade, autorização e transações.
A pergunta deixou de ser "isso vai pegar?" e passou a ser "como isso afeta meu negócio?".
Diferente de outros mercados, o Brasil tem características próprias que aceleram a adoção de wallets digitais. O Open Finance está consolidado, o Pix virou parte do dia a dia e as discussões sobre identidade digital soberana ganharam tração nos últimos anos.
Enquanto isso, regulamentações internacionais como o eIDAS 2.0 na Europa criam referências que influenciam o mercado global. Empresas multinacionais já começam a adaptar seus sistemas para lidar com credenciais digitais verificáveis, e esse movimento chega ao Brasil por meio de filiais, fornecedores e parcerias.
O cenário que está se desenhando é o seguinte: credenciais digitais vão ter peso jurídico maior, identidades verificáveis vão circular entre plataformas diferentes e as empresas vão precisar validar documentos emitidos por terceiros de forma confiável.
Isso não é especulação. É o que já está acontecendo em setores como bancos, seguradoras e empresas de tecnologia que lidam com grandes volumes de cadastro.

Um dos maiores equívocos é tratar wallet digital como sinônimo de aplicativo de pagamento. Pix, cartão de crédito, boleto — sim, essas funcionalidades existem. Mas elas são apenas uma parte do conceito.
Uma wallet digital pode armazenar:
A diferença entre entender isso como interface ou como infraestrutura é estratégica. Empresas que olham apenas para a camada visual perdem o que realmente importa: a wallet digital está reorganizando o ecossistema de confiança.
Quando implementadas da forma correta, as wallets digitais no Brasil trazem ganhos práticos que vão direto para o resultado operacional.
Onboarding mais rápido e com menos atrito. Validar identidade deixa de depender de envio manual de documentos, verificação telefônica ou processos burocráticos que demoram dias. Com credenciais digitais, a validação acontece em segundos.
Redução de redundância no cadastro. Quantas vezes o mesmo cliente precisa enviar os mesmos documentos para empresas diferentes? Com credenciais reutilizáveis, esse problema diminui. O usuário apresenta uma vez, e a credencial pode ser verificada por quem precisa, sem retrabalho.
Mais segurança em transações digitais. Identidade e autorização passam a estar vinculadas a credenciais verificáveis, emitidas por fontes confiáveis. Isso reduz fraude e aumenta a confiança em operações remotas.
Automação com responsabilidade jurídica. Processos automatizados podem se apoiar em identidades digitais confiáveis, reduzindo o risco operacional e facilitando auditorias.
Empresas com alto volume de usuários, contratos ou validações tendem a sentir esses impactos primeiro. Bancos digitais, plataformas de investimento, seguradoras e empresas de RH estão na linha de frente.
Apesar do avanço, o mercado brasileiro ainda está amadurecendo. Existem pontos críticos que precisam evoluir.
Interoperabilidade é um deles. Nem todas as plataformas conversam entre si. Uma credencial emitida por um sistema pode não ser reconhecida por outro, o que limita a eficiência e cria ilhas de informação.
Padronização técnica e jurídica também. O mercado ainda está consolidando os modelos de credenciais digitais. Quais padrões usar? Quem valida? Como garantir que uma credencial emitida hoje será aceita daqui a cinco anos?
Governança é outro ponto sensível. Wallets digitais lidam com identidade e dados sensíveis. Isso exige estruturas robustas de proteção, integridade e rastreabilidade. Empresas precisam saber quem emitiu a credencial, quando ela foi emitida, se ela foi revogada e como garantir que a evidência digital vai resistir a uma auditoria ou contestação judicial.
E tem a questão da educação de mercado. Muitos decisores ainda enxergam wallet como uma funcionalidade isolada, sem compreender o impacto estrutural. Isso gera investimentos mal direcionados e expectativas desalinhadas.
Três movimentos devem ganhar força no Brasil nos próximos anos.
Primeiro: o uso de credenciais digitais verificáveis vai se expandir. Empresas vão receber, validar e armazenar menos documentos brutos (PDFs, fotos de RG) e mais credenciais estruturadas, emitidas por fontes confiáveis.
Segundo: a responsabilidade sobre validação de identidade vai aumentar. Se a identidade estiver no centro das transações digitais, validar corretamente deixa de ser operacional e vira estratégico. Empresas que errarem nessa validação vão responder por isso, seja em termos de compliance, auditoria ou risco reputacional.
Terceiro: identidade, assinatura e preservação de evidências vão precisar se integrar. Wallets digitais não funcionam sozinhas. Elas precisam se conectar a mecanismos que garantam integridade, prova temporal e sustentação jurídica. O ganho de eficiência vem acompanhado de uma camada maior de responsabilidade.
Toda inovação passa por um ciclo de entusiasmo exagerado. Wallets digitais no Brasil já passaram dessa fase. O que ainda está em construção é o ecossistema completo: padrões técnicos sólidos, integração entre emissores e verificadores, estruturas de governança jurídica e infraestrutura de preservação de evidências.
Empresas que enxergarem wallet apenas como interface ou funcionalidade vão perder competitividade. As que entenderem como arquitetura de confiança vão sair na frente.
A transformação já começou. A questão agora é saber em que velocidade sua empresa vai acompanhar.









